MEMORIAMEDIA

Exposições

 Roda da azenha do Olho de Água ©Memória Imaterial

Origem e história

Desde cedo que o homem sentiu necessidade de moer várias espécies de grãos. Em resposta a essa necessidade utilizou pedras, almofarizes e mais tarde moinhos, movidos a vento ou a água. O termo "moinho" deriva do latim "molinum", de "molo", que significa moer, triturar cereais ou dar à mó. Os moinhos de água apareceram no século II d. C. com os gregos e os romanos, que depois o espalharam pela Europa e representam mecanismos capazes de aproveitar a energia cinética da movimentação das águas permitindo moer grãos, ou irrigar terrenos.[1] Mais recentemente e até ao princípio do séc. XX, os moinhos hidráulicos foram utilizados como fonte de energia por diversas indústrias, nomeadamente na tecelagem e no papel. Hoje, o mesmo princípio é utilizado para gerar eletricidade em micro-geração e barragens.

O moinho de água utiliza uma roda colocada horizontalmente, o rodízio, mais adequada às águas torrenciais sazonais dos ribeiros de montanha. A azenha utiliza uma roda vertical para captar a água e é mais adequada a um fluxo constante, regulada por um sistema de tanques e canais em rios e ribeiras.[2]

O Olho de Água, que dá origem à Ribeira de Cima, encontra-se na Vila de Alcobertas em pleno Parque Natural das Serras d´Aire e Candeeiros. Maria Fernanda, filha de Manuel Anacleto e de Albertina Bernardino – moleiros e donos da mais antiga e única azenha ainda em funcionamento naquele lugar – afirma que há aproximadamente 60 anos existiam cerca de 16 azenhas, desde a nascente do Olho de Água até à igreja paroquial.

Olho de Água, reservatório e início da levada ©Memória Imaterial

Nessa altura, e durante muitos anos, não existia outra forma das pessoas terem farinha e pão a não ser diretamente a partir dos moinhos. Não existiam padeiros e as pessoas faziam o seu próprio pão, para tal utilizavam sobretudo farinha de cevada: ‘O pão de cevada era muito bom! Só que era preto!’ (Albertina Bernardino).

Manuel Anacleto, hoje com 80 anos, herdou o moinho com 17 anos quando o seu pai faleceu. Nessa altura o pai tinha cerca de 100 fregueses e Manuel tinha poucos conhecimentos acerca do funcionamento do moinho. O pai passou-lhe pouca informação de moleiro, tendo-lhe transmitido mais ensinamentos acerca dos ‘trabalhos de agricultura na fazenda’ (Manuel Anacleto).

Apesar disso, a azenha já despertava o interesse de Manuel e chegou a dizer ao pai: ‘Se alguma vez eu ficar com o moinho hei de pôr aqui uma roda hidráulica’[3] (Manuel Anacleto). Diz-nos que o pai nem sabia o que era uma roda hidráulica, mas ele passava muito tempo com o seu primo Amândio, moleiro de profissão que desde cedo lhe ensinou muito sobre esta arte.

Embora ajudasse os pais desde os 8 anos de idade, quando começou a trabalhar sozinho na agricultura e no moinho aos 17 anos, Manuel Anacleto depressa cumpriu o desejo que tinha relatado ao pai – comprar uma roda hidráulica.  A sua primeira roda tinha 80 cm de largo e foi a que durou mais tempo, cerca de 30 anos. Como na época ainda não havia máquinas a roda foi toda feita à mão numa serração da região, a partir de um carvalho muito grosso. A escolha da madeira de que é feita a roda é fundamental para o seu bom funcionamento.

A sua primeira roda, levou 42 dias a ser construída, em cima de uns bancos, com uns esquadros, um metro e um cordel. Comparando com ‘as rodas do pai’ [rodízios], esta era muito mais rentável, pois com muito menos água produzia muito mais farinha – ‘(…) só uma roda [hidráulica] dava muito mais rendimento’ que o sistema antigo de ‘tinha três rodas!’ (Manuel Anacleto). O primo Amândio chegou a dizer-lhe: ‘Se o teu pai viesse agora e visse uma roda tão grande, o que seria de ti?...uma roda tão grande e tão cara!’.

Moleiros: Albertina Maria Bernardino e Manuel dos Santos Anacleto ©Memória Imaterial

Aos 26 anos casou com Albertina Bernardino, e o casal passou a trabalhar em cooperação com outro casal – a irmã e o cunhado de Manuel – dividindo os afazeres das fazendas e dos moinhos (o moinho de água e um outro moinho de vento).  Manuel e a irmã dedicavam-se mais às atividades de moleiro, e Albertina e o cunhado ocupavam-se sobretudo das tarefas de agricultura e de pecuária, uma vez que também tinham algumas vacas – ‘Ajudava mais na fazenda, ia com o cunhado. Se fosse preciso ajudava a pôr o trigo nas mós ou a entregar os saquinhos de farinha’ (Albertina Bernardino).

Esta cooperação durou cerca de 10 anos, em que todos ‘(…) trabalhavam para a casa’, e só terminou quando o pai do cunhado de Manuel faleceu, e deixou de herança ao filho mais alguns terrenos, fazendo com que tivessem optado por separar os terrenos começando cada casal a trabalhar em separado.

A partir dessa data, Manuel e Albertina passaram a dividir o trabalho das fazendas e do moinho, contando sempre com a ajuda do primo Amândio, que sempre os apoiou, sobretudo nas artes ligadas ao moinho. Ao longo da nossa conversa com Manuel e Albertina, o primo Amândio é mencionado diversas vezes, como alguém muito próximo, quer na transmissão de saberes e na ajuda prática nos trabalhos do moinho, quer nos afetos e na cumplicidade. A este propósito, podemos referir o sistema de comunicação existente entre os dois quando trabalhavam nos seus moinhos de vento, localizados em serras opostas, a cerca de 3km de distância. Os dois primos tinham um sistema de alerta, que consistia em colocar um pau com uma lanterna pendurado na janela do moinho. A luz acesa da lanterna no alto da serra alertava imediatamente o outro da necessidade de ajuda – ‘O Amândio ensinou-me muito. Trabalhava de noite e de dia. Tinha o moinho de vento lá em cima (…) muito grande, o maior da freguesia. (…) Ele percebia mais do que os carpinteiros. Partia-se alguma coisa no moinho (…) e eu punha um sinal que era um pau com uma lanterna pendurada. Era o telefone que havia!’ (Manuel Anacleto).

Depois de Manuel Anacleto ter comprado a sua primeira roda hidráulica para a azenha, a clientela começou a aumentar, pelo que decidiu comprar um motor a gasóleo, uma vez que na altura, ainda não existia eletricidade na localidade. O motor ajudava a manter a moagem em funcionamento sobretudo nos meses quentes, a partir de abril, quando a água era dirigida para as regas. O motor também servia para o funcionamento da lavadoura, uma máquina de lavar e secar o trigo. Mais tarde, há cerca de 50 anos, a eletricidade chegou à região e passou a utilizar um motor elétrico, o que facilitou muito o processo, tanto na moagem dos cereais, como na lavagem do trigo.

Chegou a ter mais de 500 fregueses, e só não teve mais porque ‘(…) não conseguia dar vazão (…)’, uma vez que não tendo sementeiras suficientes para responder a todos os pedidos dos clientes tinha de ir comprar cereais a Lisboa, Vila Franca, Vale Figueira ou Caldas da Rainha.  Como não sabe ler e não tem carta de condução ‘(…) tinha de pagar a quem fosse buscar com ele’.

Atualmente, a roda que existe na sua azenha tem cerca de 22 anos, e trabalhou até 2018, mas já está em muito más condições. Manuel Anacleto ainda deseja comprar uma roda nova, ‘(…) nem que seja por desporto’, afirma.

 


[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Moinho

[2] https://www.e-cultura.pt/patrimonio_item/13815

[3] A roda hidráulica ou roda d'água é um dispositivo circular montado sobre um eixo, contendo na sua periferia caixinhas ou aletas dispostas de modo a poder aproveitar a energia hidráulica. In https://pt.wikipedia.org/wiki/Roda_de_%C3%A1gua