Ser padeiro
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As récitas dos anos 50
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Ser padeiro
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António Américo
As récitas dos anos 50
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António Américo
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Título: MEMÓRIAS e TRADIÇÕES - Alenquer
Nome: António Américo
Ano nascimento: 1943
Local do registo: Casais Brancos (residência Paiol)
Freguesia: Aldeia Galega da Merceana
Concelho: Alenquer
Data do registo vídeo: 1-6-2021

Entrevista e vídeo: Memória Imaterial
Transcrição: CLDS4G

Resumo: António Américo descreve a profissão de padeiro, explicando diversas técnicas da produção do pão e de como essa profissão evolui ao longo dos tempos. Relata memórias sobre a sua participação em Récitas, quando ainda era jovem.

Ser padeiro

“Trabalhei de padeiro dos 14 aos 20 e depois fui para a tropa 3 anos, e depois saí da tropa aos 24 e até aos 26 foi padeiro outra vez. Depois fui tirar a carta, fui ali para Torres para a Sotopal trabalhar e tirar a carta de condução. Andei só 1 ano na carga, fui logo para a empresa em Alenquer – (…) [para a] rodoviária, foram 40 anos.”

“Eram os papos-secos, carcaças 16, pão de 17 - que era de farinha escura -, e pão de 22 que era um bocadinho maior, (…) custava 22 tostões naquela altura. E então era esse pão que se vendia aqui, assim na área era o de 17 e 22, e também se vendia carcaças de 16. E (…) alguém que era mais fino [compravam] os papos-secos.”

“Era o forno a lenha e depois passou a gasóleo, a ser quente a gasóleo. Isso foi a pior judiaria que podiam ter feito ao povo foi fazer uma coisa dessas. Aquecer um forno a gasóleo e ir lá meter pão passado 1 quarto de hora, você veja lá o que era o bem que isso devia fazer, né? Hoje é que se faz bem ideia disso, mas aqui há uns anos não. Hoje é a eletricidade, hoje não há gasóleo, mas naquele tempo era um maçarico cá fora a arder, o gasóleo lá para dentro a aquecer o forno durante 1/4 de hora. O forno estava quente, fechava-se a porta, começava-se a meter o pão pela portinha pequena [e] depois ficava lá a cozer com aquele gasóleo — que se infiltrava lá dentro para aquecer.”

“Durante aí 12 anos foi sempre à mão, era sempre, o forno levava 40 kg de farinha e era o que a gente amassava. Eramos 2, era eu e outro. Amassava-se 40 kg de cada vez que era o que o forno levava. (…) Uns anos mais tarde veio as mecânicas e então custava menos a amassar — já não custava nada—, custava mais era a meter dentro do forno. Uma pá levava 12 pães, hoje vê-se as mulheres a meter ali um pãozinho, às vezes estão ali à rasca, e a gente levava 12 pães naquela pá para meter lá dentro.”

“A farinha vinha da moagem de, bem era de várias moagens,… vinha da moagem de Alenquer. O meu patrão (…) primeiro ia buscar a Alenquer — era com uma carroça com um cavalo. Depois, mais tarde, já havia furgonetas — ia a Alenquer e iam a Torres à farinha, às moagens buscar. E aqui neste meu patrão ele competia muito com o Surraipas do Arneiro (que também tinha uma padaria que vinha aqui vender) e ele para vender melhor pão metia muito farinha dos moleiros porque a farinha dos moleiros fazia sempre melhor pão que as da moagem. E ele então tinha hábito de fazer isso (…) para vender mais. Era o que se passava.”

 

As récitas dos anos 50

“Dos 14 até aos 17, para angariar fundos para a escola nova, (…) no Paiol fizemos récitas (…). Eramos 15, rapazes e raparigas e professores. Era o professor Oliveira (…), era o Morais da Merceana e era o Manuel Abrantes, esse era o ensaiador. Fizemos uma quantidade de récitas, comprou-se o terreno para a escola e então fez-se lá uns teatros. (…) Eu fazia uma ganda peça que era ressonar sem dormir, deitado numa cama a ressonar sem estar a dormir e depois bebia uma pinguinha de laranjada. E isso vai ser muito engraçado que vocês vão se fartar de rir: estava na mesa de cabeceira o copo com a laranjada e um tipo "muita porreiro" que era daí, "muita porreiro" (…) [noutro] sentido, que é o Dimas Cácá — [ele] roubou-me o copo, bebeu a laranjada e urinou dentro do copo [que tinha] uma pinguinha de laranjada e depois eu meti aquilo aos queixos e bebi ainda um golo.”

“Havia o drama, havia sempre um drama feito por 2 ou 3, normalmente 3 [pessoas], e (…) havia a parte cómica (…) [durante] mais tempo, na parte cómica entrava sempre 5 ou 6 [pessoas] (…). O drama era coisa de meia hora, nem tanto, depois as partes cómicas…e depois havia danças também, havia quem tocava guitarra, … até mais tarde veio um tipo ali do Sobral acompanhar também com acordéon e era assim, havia danças também no palco, viras e muitas coisas dessas, assim no género.”

“Quem escrevia essas peças era o farmacêutico da Merceana o Morais. O Morais é que era um grande…, em novo parece que foi um ganda ator também. Isso não me lembro, porque ele era muito mais velho do que eu (…). Era as peças dele e o ensaiador era o Manuel Abrantes da Merceana, tinha lá uma barbearia — lá ao pé do Morais — e esse é que era o ensaiador. Ele e mais o Morais eram os técnicos para ensaiar [as] récitas que a gente fez durante 4 anos. Fizemos uma quantidade de récitas lá em baixo no Paiol, onde se apurou dinheiro para comprar a escola e iniciar o serviço da escola, depois a Câmara é que acabou, a Câmara ou alguém, devia ter sido a Câmara, que acabou a escola, isso já não me lembra (…).”